segunda-feira, setembro 15, 2008

O Gramofone

Em dias frios, de chuva rala, tirava do armário o casaco tricotado pela avó e alugava um bom filme. Nesses mesmos dias, prestava atenção no silêncio da casa, no meio da tarde escura e ficava bem quietinha, como se ela mesma fizesse parte daquele vazio, como se os sons distantes, que vinham da rua, fossem a única coisa capaz de invadir o ambiente. E se sentia pequenina, impotente, apenas o efeito de todas as causas que se encontravam em seu destino. A casa era grande, com vários espaços desocupados, com muitas lacunas a serem preenchidas. E se sentia sozinha, com saudade dos amigos que estavam distantes e demoraria a rever. Desabitada de um amor, que dispensaria o casaco em um dia frio como aquele. Na casa da avó, em cima da estante com os livros amarelados de décadas passadas, ficava o gramofone. Parecia uma enorme orquídea de metal. Qualquer dia mais ensolarado iria até lá, encaixotá-lo, colocá-lo no ônibus e depois na sala, para quem sabe servir de companhia. O gramofone a faria sentir mais em casa. Pontuaria um futuro esperado. Desde pequena, pedia a avó, para que um dia, quando fosse grande, a deixasse levar o gramofone para a casa que fosse sua, enfeitar a sala e servir de lembrança. Bom, já estava na hora. Não que se sentisse grande, mas a sala parecia vazia. Faltava alguém que entrasse para mudar a sua vida. O amor engolido em seco, a devorava aos pouquinhos, deixando pela calçada os dias de sol, deixando o sentimento escurecido pelas noites vazias. Estava cansada da beleza triste de seus poemas. Cansada de amores desencontrados. Desde pequena aproveitava a chuva para escrever histórias. E nessa mesma época gostava de imaginar como seria o dia em que levaria o gramofone para o lugar que fosse seu. Como seria a sua casa, a sua vida, os amigos? Como seria o par perfeito com quem dividiria a sala? Porque obviamente já daria tempo de tê-lo encontrado pelo caminho.

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

faltava alguém que entrasse para mudar a sua vida...

sim. precisamos sentar. encher a cara. tagarelar. chorar. rir.
falar até cansar sobre esses sentimentos que a gente encontra e desencontra pelo caminho.

prometo. assim que ficar livre na faculdade vou praí!

21:49  

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