Sunday, November 08, 2009

Anotando a vida

Ando num momento de desinspiração, acontece.
Mas para não passar em branco,
quantas possibilidades estão em um leve encostar de braços?
Pele que se esquenta na pele alheia.
quantos sinais são interpretados corretamente?
E se, não há certezas, e sim, dúvidas que insistem em fantasiar...
Como deixar as invencionices e se arriscar?
Um tiro no escuro, pode ser fatal.
Nos olhos que mora a beleza,
A verdade fica, estrategicamente, escondida.
E por enquanto apenas espero.
Te vejo por fora, tentando decifrar o enigma.
Você é o mistério que vou conhecendo aos poucos...

Wednesday, October 14, 2009

A caixa de



Teus olhos de mansinho se viram nos meus. Que surpresa encontro, assim que rasgar os papéis rotos do embrulho, arranjado às pressas? Para além deles vou devagarinho ver o que está por dentro da caixa. O que esconde o cubo de papelão. Descobrir se o presente ocultado revela algo mais, mais do que o objeto apenas. Inesperado ou não. Vazia ou cheia, a embalagem já está nas mãos. Sujeita à última fita adesiva que a mantém fechada. Sujeita ao último instante em que as pontas dos dedos se debatem contra a tampa, prestes a expor a verdade. O ritmo dos dedos marcando a dúvida. Todo o resto na espera. De manhã o tempo era nublado. Existe uma fresta no embrulho, mas a curiosidade vacila, e a caixa fica embaixo da mesa. Guardada. De tarde o sol apareceu.

Wednesday, October 07, 2009

De fora pra dentro e vice-versa

Debruço-me dentro de mim,
Deparo-me com o medo do vazio.
A vista curiosa escorrega.
E nesse caso a queda é livre.
Meu corpo cai dentro do meu próprio corpo,
O vazio é ao que me agarro. Onde procuro.
Se há coragem fecho os olhos e caio no escuro.
O corpo é leve, a alma pesada
Nas paredes grossas só há músculos tensos
Enrijecidos com o tempo, desacreditados
O sangue ainda corre, mas se o que sobrou foi muito pouco
Ou quase nada? Ainda procuro no final?
Mesmo que escuro? Escuro, uro, uro, uro...
Ecoa, voa, ricocheteando palavra em célula.
Do meu eu hoje entrando em colisão com todos meus eus que já pensei ter sido.

Wednesday, September 30, 2009

No Tom

Esqueci o teu nome entre as embaralhadas frases que desperdicei no caderno. Entre os escritos desesperados, onde, lugar este - usei para negar que te amava. Malfadados dizeres que buscavam me convencer que amor era outra coisa. E que escrever resolveria os tais problemas inexistentes. Porque eu não te amava. Assim como também não sonhava, não queria e não lembrava. Você bem sabe das brigas que nunca tivemos e das discussões que terminavam em beijos. Naquelas noites em que eu não dormi com você. Sem falar nas confidências que muito menos trocamos. E se tivéssemos jurado alguma coisa já seria demais. Eu não sei quando foi que nos conhecemos e jamais lembraria do jeito que me olhou da primeira vez. Até poderia pensar que sua voz ainda me soa familiar, mas não, nem isso. Pois nunca houve cinema e nem dias de chuva. Quem sabe se eu fizesse um samba e desmentisse um pouco, existisse solução. Mas como já era de se imaginar, não havia música. Eu me enganei, tantas vezes, e não pense o contrário, pois não era para você que eu telefonava. Muito menos foi por você que eu chorei. Nunca soube o seu nome. E bobagem dizer que não te quis tão sinceramente ao meu lado, pois foi você que me ensinou todas essas mentiras. Para falar a verdade eu nunca escrevi sobre você.

Sunday, September 20, 2009

Palavras absolutamente esquecíveis

Cala. Se me falta o amor por um instante, cala. E a fina camada que a garoa translúcida deixou na calçada... Cala. Escuta o farfalhar constante das árvores que formam um corredor e no meio a rua. No asfalto os carros passam. A pálpebra de leve treme e aperta os olhos. Fala. Com qual doçura a vida te brindou enquanto a noite esfriava? Que casaco escolheu no fundo do armário para se vestir de você mais um pouco? Que acaso devo esperar para qualquer encontro ao dobrar a esquina? Fala. Bobagens que podem significar nada. Nada. Apenas isso. Não mais que o vazio de palavras absolutamente esquecíveis em minutos. Enquanto fala, tento desnudar a cortina e alcançar-te do outro lado. Para entender se o que realmente fala é o que sente. E se o que sente é capaz de te fazer atravessar a rua e me parar, enquanto caminho desenfreada, na calçada ao lado. E nesse caso, para abrandar a mente, quando muito meus pensamentos se perderem alheios à fala, entre a linha da razão e da loucura vejo o óbvio. Não falta, não cala. A chuva volta. Os meandros do pequeno rio que desliza no canto do asfalto. A noite persiste, o corpo pede, os lábios falam, na mente as palavras confundem, a pálpebra de leve treme antes de apertar os olhos. Cala. Escuta o farfalhar das folhas enquanto o vento passa. Elas debocham do segredo, fazem pouco do beijo. Noite adentro, tempo afora. Preciso tomar fôlego antes de retomar o caminho, por isso paro. Amanhã ainda não é nada. Hoje escrevo, mesmo que as palavras me faltem, para buscá-lo, dar voz ao que me resta, mas se resta alguma coisa, ainda não falta.

Tuesday, September 01, 2009

A culpa é da Insônia

Ela veio me visitar ontem à noite. Passou pelo cobertor, fez um afago nos meus pés e dividiu comigo o travesseiro, por algumas horas. Longas horas. Fez meu pensamento trabalhar rápido e não me deixou dormir. Também nem me atrevi, com tantas coisas na cabeça, apenas tentei, discretamente, pegar no sono, sem que ela percebesse, mas não era fácil com sua vigília constante e desisti, logo. Um pernilongo veio zunir no meu ouvido, como se já não bastasse serem quase cinco da manhã e o dia por nascer antecipando o meu cansaço. Enfim, já fazia tempo. Cheguei a acreditar que ela sumiria de vez, que as temporadas clássicas, de noites mal dormidas, faziam parte do passado, agora. Que nada! Vi que ela riu debochada. “Pensou que eu não voltaria?... Quanta inocência!” É, no fundo eu sabia que éramos um pouco dependentes uma da outra e que não tinha outro jeito, nos encontraríamos de novo, na solidão silenciosa da madrugada. A janela aberta deixava a sombra da árvore mais próxima invadir o quarto, seus galhos se mexendo de leve na parede branca. Parecia alguém do lado de fora, que tentava me dizer alguma coisa. E como não havia nada para fazer na monotonia da cama, minha atenção se perdeu naqueles movimentos, nas curvas... Tentava decifrar as formas. O quanto de poesia há na imagem de um galho e suas folhas projetadas na parede? Não sei. Não imagino o que possa ser dito sobre isso. Mas quem sabe? Confesso que existia a saudade escondida no aconchego das cobertas. Esses encontros me faziam escrever mais. Me acalmei e deixei que ela ficasse comigo mais um pouco. As duas deitadas de olhos abertos. O galho na parede, o tempo quente, o respirar ritmado de alguém que dorme na cama ao lado, o primeiro clarear do dia, o pernilongo foi embora, o cheiro de café que vem quase junto do sonho. Quando acordei já era quase meio-dia.

Sunday, June 28, 2009

Dos dois lados da mesa

Domingo é dia de casa. Pensei em escrever depois de muitos dias em branco, porque afinal de contas, não me reconheço quando passo tantos dias assim. Em branco. E repensei em um monte de coisas, e repassei na cabeça um monte de cenas envelhecidas. E ao relembrá-las percebi que de algumas já não me recordo bem. E na velhice dos meus 24 anos, me sinto sozinha essa noite. Uma boa caminhada pela praia, a maresia, faz bem sair de casa para variar. Faz falta sair para dançar, e se perder no descompasso dos pés com a música, pouco importa o ritmo, mas as pessoas em volta fazem toda a diferença. Foi então que senti saudades de recentes anos passados, e de pessoas e de momentos. Eu sei que existem coisas, que por enquanto, ainda é cedo para escrever.

Um Episódio qualquer:

A conversa começa quando se sentam no bar.
_ Eu sei que é difícil falar sobre isso, mas a gente precisa conversar.
_ É, acho que já ta na hora de termos essa conversa mesmo.
_ Então, preciso saber o que a gente tem.
O garçom chega e deixa o cardápio na mesa. Desviamos a conversa para resolver o que vamos comer. Uma pizza, uma porção de batatas fritas. De primeiro um suco de laranja e um chopp, bem gelado. A comida melhor pedir mais tarde.
_ E...
_ Eu não sei.
_ A gente não tem nada, é isso?
_ Não é isso.
_ Então o que?
Chega o chopp e o suco ainda vai demorar um pouco, espremer as laranjas e tal. Aproveita para tomar um gole antes de responder.
_ A gente fica, é isso.
_ Mas isso é muito esquisito. Não dá mais.
_ Eu sei que é estranho, mas você sabe que não posso ir além.
_ Claro que pode, é só você querer.
_ Não é bem assim. Você sabe.
_ O que eu sei é que ta foda.
Mais um gole de chopp e acende o cigarro, aproveita para pedir um cinzeiro para o garçom e definitivamente uma pizza.
_ O problema é que eu acho que começamos mal, na hora errada, sabe?
_ Pode até ser, mas você vai me desculpar, não existe hora para essas coisas, a gente faz o momento. É só querer.
Silêncio reflexivo.
_ Talvez, mas eu não consigo, não agora.
_ Porque você não tenta?
Não responde: “Porque eu tenho medo.” Mas deveria.
_ Porque não daria certo.
Não retruca: “Porque você tem medo.” Mas sabia.
_ Tentar pelo menos, se desse errado, enfim... A gente tentou.
Chega a pizza, à francesa. Mais um chopp, por favor.
_ Prefiro manter a nossa amizade.
_ Sei...
_ Não é que eu queira terminar com você, não é isso, mas se você acha que ta ruim do jeito que ta, que ta te machucando... A última coisa que eu quero é te machucar.
_ Você não ta me machucando, eu só quero entender.
Ri ironicamente.
_ Eu também não sei, às vezes penso que não tem nada a ver, mas outras vezes fico com saudade e penso que poderia dar certo... Só que não dá para assumir nada na dúvida, seria injusto.
_ Injusto com quem?
_ Com você, é claro.
_ Mas eu to te dizendo que eu quero correr o risco.
_ Não quero te machucar.
_ Você já disse isso.
_ É porque é verdade.
_ Você fica com esses papos, ta difícil te entender. Se você não gosta de mim, é melhor a gente terminar logo de uma vez. Vou ficar bem com isso, juro.
_ Você quer terminar? Se é o que você quer, eu entendo.
_ Não é o que quero, mas... Eu quero saber o que você sente por mim.
Silêncio constrangedor. Uma resposta qualquer seria muita responsabilidade, significaria demais.
_ Não sei. Gosto de ficar com você, mas to saindo de uma fase complicada da minha vida, não sei se conseguiria realmente me envolver com alguém agora.
Respira fundo, a pizza fica pela metade, esquecida. O copo vazio, o cinzeiro cheio.
_ Melhor pedir a conta. Acho que não vamos chegar a lugar nenhum hoje.
_ E como fica?
_ Sei lá, não fica, a gente vê com o tempo.
Não demorou muito foram embora. Naquela noite resolveram dividir a cama e dormir para fingir que tinham resolvido alguma coisa. Demorou mais um pouco e o tempo disse que realmente não daria certo. E por duas vezes eu tive essa conversa, mesmo enredo, mesmo final, mas cada uma de um lado da mesa, pessoas diferentes, momentos diferentes e igualmente desencontrados, errados. Com certeza o medo é o pior inimigo das relações amorosas.