Segunda-feira, Fevereiro 01, 2010

No meio do redemoinho



Joguei um pensamento num redemoinho,
como um barquinho feito de pedaço de jornal,
que foi rodando, circundando a bacia grande,
a água desfazendo-o aos poucos,
ele se aproximando do centro.
Eu olhava-o sem menção de interferir,
segurava a bacia diante do rosto,
com a curiosidade que é inevitável,
mas que não tem coragem suficiente para se manifestar.

A água desfez o jornal,
que foi parar no fundo da bacia,
antes que o pensamento chegasse ao destino, olho do redemoinho.
Mais tarde observando o que restava no acinzentado assentado
do recipiente que ainda segurava com vacilantes mãos,
não pude chegar à conclusão nenhuma.
Salpiquei o resto do jornal empapado nos vasos de flores da varanda,
e dei como suficiente a força que o moveu do princípio.

Reguei os brotos com a água da bacia,
imaginando que as próximas flores nasceriam mais belas.
Torci para que despontasse algum botão azul como o céu,
o que já seria um pequeno milagre.
E mais que um pensamento, o nascimento, a renovação, a vida...
O que restasse daquele movimento resignado
seria sugado pelas raízes.
E na minha calma solitária, prometo seguir buscando
outros pensamentos, redemoinhos
e principalmente pequenos milagres.

Domingo, Janeiro 24, 2010

O solo da bailarina

Da noite surgiriam as estrelas,
das estrelas, se de papel fossem, construiríamos móbiles.
Os móbiles, para pendurar, por metamorfose
se transformariam em sinalizadores do vento.
O vento levaria seu canto para bater nas janelas.
As janelas, depois de abertas, deixariam a música invadir a casa.
A música, bem, a música faria tudo mais bonito.
E então você dançaria.
Dançaria como a bailarina que não precisa de palco,
pois bastaria a música.
E só de deixá-la penetrar o corpo e fechar os olhos,
poderia alcançar a lua, e da lua todos a veriam.
E como você poderiam sentir também
o vento, o canto, as estrelas de papel, a música, a noite...
Das janelas abertas.
Suficiente seria olhar para o céu,
e além de olhar poder ver.

Segunda-feira, Janeiro 18, 2010

O moedor de pimenta

Não era o pinguim de geladeira, não era qualquer presente escondido no fundo do armário, nem a roupa de cama, definitivamente não eram os porta-copos, nem as lembranças, tudo que ela queria de volta era o moedor de pimenta. Como num samba zombeteiro, que canta as desavenças das relações amorosas, ela ria da situação, como se pudesse imaginar a letra do seu próprio samba. Se não fosse sério pareceria cômico. Afinal de contas, ela tinha seguido o caminho, tinha ido em frente, apesar das dificuldades que englobavam deixar tantas coisas e pessoas para trás. Mas o moedor de pimenta... Esse se tornava uma questão de honra. E se para outros a trama fosse mais simples do que complicada, para ela, desatar os nós significava sim, tirar todos os objetos que restavam no apartamento. Mas claro, só levaria o que fosse seu. Pelo simples motivo, de que carregavam uma energia pessoal e intransponível, que não fazia sentido continuar presa naquelas paredes, pertencentes aos cômodos, habitados por pessoas, das quais, naquele momento, precisava se afastar. Normal. Ninguém tem culpa. Ninguém pode prever. Nem ela, nem eles... É impressionante a capacidade do ser humano em se auto-sabotar, quando finalmente atinge a capacidade de sentir, de se apaixonar, não sabe lidar com isso, é muito sentimento, e ai... Bom, e ai de repente as pessoas se perdem, porque se torna difícil dialogar. Acontece. E dessa viagem que se embarca num rompante, o retorno, na maioria das vezes, é deveras complicado. O remédio é mesmo tomar: distância e tempo. Juntos de preferência. Ela já havia plantado uma pimenteira, que começava a brotar. Quem sabe alguns anos mais tarde, tudo seria motivo de graça, e os grandes problemas da época, pareceriam não mais que pequenos desentendimentos. Definitivamente, ela precisava recuperar o moedor de pimenta. Porque a questão estava além do objeto. Será que era muito a pedir?... Vai saber.

Quarta-feira, Janeiro 13, 2010

( )

Eu não disse nada até agora
porque esse ano começou
com um grande silêncio.
Emudecendo...
Por isso até agora,
não sei muito bem o que falar,
ainda estou me acostumando ao calor de janeiro
a essa sensação de correr dos dias na inércia.
E se é que tem jeito, até que volte para o lugar,
à bagunça...
Por enquanto, em branco protesto,
me calo.
Simplesmente, por não saber outra saída.

Quinta-feira, Dezembro 31, 2009

Das coisas para se esquecer – Parte 1: Nair

Nair perdeu horas naquela manhã procurando os óculos. Sem eles seria impossível ler as receitas do livro, e sem elas mais difícil ainda preparar o almoço. Lá pelas tantas, foi ao quarto pegar qualquer coisa e se deparou com eles, os óculos, intocados na mesinha de cabeceira ao lado da cama, lugar que sempre ficavam quando ia dormir até a manhã seguinte. Com eles entre os dedos, se deu conta de que simplesmente, se esquecera de colocá-los no rosto ao acordar. Pela primeira vez em anos, o hábito matinal fora quebrado, e o pior, dele, nem se dera falta. Às vésperas de completar 76 anos, Nair teve a triste constatação que começava a se esquecer das coisas. Os meses correram, e mais um par de anos, e a cada dia a mais, algumas pequenas memórias a menos. Principalmente as recentes, essas teimavam em não parar na cabeça. O comum era repetir uma pergunta algumas vezes por dia, pois não conseguia gravar a resposta por mais que alguns minutos. Lá pela quinta, ou sexta vez, quem ouvia já respirava fundo antes de responder e, sem paciência alguma, dizia qualquer coisa, pois sabia que mais tardar na hora do jantar aquilo voltaria a ser uma questão. Nair estranhava o súbito mal-humor dos familiares e desconfiava que tinha algo a ver com ela, mas não podia ter certeza. Outro dia, Nair conversava com uma amiga ao telefone, quando essa lhe pediu o número da paróquia, pois precisava falar com o padre. Nair, beata fiel, pediu um instante a amiga e foi procurar, vasculhou por quase dez minutos as gavetas, em cima das mesas, os bolinhos de papel e não encontrou. Disse a amiga que tornaria a ligar assim que achasse e desligou. A filha de Nair colocava o café na mesa, quando ela sentou-se desolada, ainda com alguns papéis na mão, e contou que não sabia onde estava o bendito telefone. A filha colocou um pouco de café na xícara e perguntou se a mãe já tinha olhado na agenda. Não, ela não tinha. Nair ficou com cara de espanto, começava a se esquecer das coisas que escrevia, e dos lugares em que escrevia. Nada de muita importância, mas nomes e datas já não eram seu forte, muito menos recém-conhecidos, a esses tornava a se apresentar toda vez que se encontravam. Porém, vovó Nair ainda era capaz de surpreender filhos e netos ao falar de assuntos que não esperavam fosse recordar: um acontecimento, uma pessoa, uma roupa, um perfume... Sim, poderíamos dizer que a memória da vovó optava em ser seletiva. Escolhia o que poderia ser deletado e o que, por nenhuma razão aparente, cuidadosamente, ficava. No entanto, restava a dúvida: por que a querida vovó Nair, andava tão esquecida ultimamente? No início, ninguém se importava com os pequenos deslizes: hora não se lembrava disso, depois não se lembrava daquilo... Mas como tudo que se repete demasiadamente parece um sintoma, ficou impossível não se preocupar. Os médicos disseram ser normal naquela idade, de se espantar seria o contrário. Envelhecer tinha dessas coisas. E assim sendo, o que fazer além de continuar ouvido as histórias que Vovó Nair recontava e recontava? Nada. Melhor ouvir e fazer como se fosse da primeira vez, pois deixar a doce senhora de cabelos brancos feliz, já valia o dia. Nair nunca achou propriamente ruim envelhecer, julgava ser importante viver bem todas as fases, todas as etapas e todos os momentos, sem desperdiçar nenhum trisco de tempo, e disso não podia reclamar. Definitivamente não se arrependia de nada e muito menos voltaria atrás. O difícil mesmo era suportar a sensação de que, em pequenas porções, partes da sua vida, aos poucos, dia após dia, iam sendo esquecidas. E, não mais que de repente, desapareciam.

Domingo, Dezembro 20, 2009

Desnudo

Respirei fundo e te abracei, sabia que naquele momento, nada poderia ser além. Um abraço, um braço que percorre as costas. Um laço frouxo, que poderia ser menos nó. O nó que ficou na minha cabeça. Queria saber o que se passa debaixo da sua pele, carapaça, invólucro que te esconde de tudo que não sei, de tudo que involuntariamente imagino. O que fazer para deter as reverberações da mente, que capta partículas tão vagas, de sensações que você transpira e vem carregadas pelo ar? Eu respiro... E elas me invadem, me tomam e me habitam. Então eu prendo a respiração para senti-las mais profundamente e te sinto. Entre os meus braços apertados contra seu corpo: você. Entre os meus braços: a verdade, invisível a qualquer sentido óbvio. Eu: entre seus braços. Não poderia descrever a sensação que me percorre o corpo, mas todo ele formiga. Pedaços de um quebra-cabeças partido. A minha verdade é que não sei como encaixar as peças, e nem como entrar num sentimento abstrato, (se existente) e deixá-lo grudar com cola meu coração quebrado. Deixar que os remendos cicatrizem com o tempo. Deixar que remende-o e faça-o novo coração. E nem sei se meros detalhes, cacos de louça, como esse, significam, quando já espalhados pelo chão. A única certeza, confesso, é a da impossibilidade de voltar atrás.

Terça-feira, Dezembro 08, 2009

Reminiscências

No escuro, ouviram-se vozes sussuradas:
-Você tem medo de escuro?
-Não... Você tem?
Como os pensamentos não falavam, os dois se calaram brevemente.
-Um pouco...
Nessa época, eles tinham não mais que oito anos.
-Sabe o que espanta o medo?
-O que?
Ele procurou a mão dela por entre as cobertas empilhadas. O cheiro ali dentro misturava um tanto de môfo, com cheiro de velharia há muito guardada. Muitos anos mais tarde, ele lembraria desse dia, ao abrir um antigo guarda-roupa, mas não se daria conta de que o motivo, que foi resgatar tal lembrança, era justamente o estranho cheiro familiar. Sentindo os finos dedos dela, gelados, os envolveu bem entre os seus, igualmente frios. A verdade era que os dois sentiam medo. E deixaram-se ficar assim de mãos dadas, por alguns longos minutos, em silêncio. Só os pensamentos murmuraram, mas o som se confundiu com a respiração dos dois. Ela não saberia explicar, mas naquele momento, o medo se foi. E não tornou a aparecer. A única certeza que tinha era a de que poderia continuar perdida por entre as cobertas empoeiradas, sua mão perdida na dele, por muito tempo ainda.
-Você já quis saber como é beijar?
Ele perguntou, depois de se encher de coragem. Ela nunca havia pensado sobre isso. Mas ao refletir a respeito, bem que tinha curiosidade no assunto.
-Acho que sim.
Ele se virou para ela, sem saber para onde olhar, pois só enxergava um vulto no breu.
-A gente podia tentar e ver como é.
Ela sorriu matreira, sabendo que ele não poderia vê-la.
-Pode ser.
E tateando um o rosto do outro, eles se beijaram sem saber ao certo como agir, no escuro, enquanto se escondiam dentro do armário. Um pouco depois, outra criança abriu as portas e acabou com a brincadeira. Não voltaram a conversar sobre isso. Pouco se viram nos anos que seguiram. Porém, jamais se esqueceram do instante em que seus lábios se encontraram, em meio a confusão dos corpos, das cobertas, das descobertas, dos travesseiros, dos gostos, das bocas, do cheiro, da infância, da inocência, do escuro...
A recordação caiu no fundo do armário, quando os dois deixaram o esconderijo, e depois foi incorporada a toda a velharia, guardada há muito mais tempo agora.